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5.8.10

lições de jandira



Minha Pedagogia

(Dom Helder Câmara)

Não ensines a teu filho
que as estrelas
não são do tamanho que parecem ter:
maiores do que a terra!
São lâmpadas
que os anjos acendem todos os dias
assim que o sol
começa a escurecer...
Não diga a teu filho
que as asas dos anjos
só existem na imaginação.
Já vi meu anjo em sonho
e posso jurar
que ele tem asas claras
que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça de teu filho
ensinando-lhe hipóteses precárias
que amanhã de nada servirão.
Povoa de beleza
o olhar inocente de teu filho.
Dá-lhe uma provisão de bondade
que chegue para a marcha da vida.
Infunde-lhe na alma
o amor de Deus
- e tudo o mais,
por acréscimo,
ele terá.







Encontrei este poema (ou oração?) de Dom Helder Câmara por acaso, agora na época do meu desligamento da obra de Jandira, que vai acontecer no próximo final de semana. Trabalhei lá como arquiteta da assessoria técnica USINA desde abril deste ano.

As 128 casas que estão sendo construídas, em regime de cooperativa-empreiteira durante a semana e em mutirão aos sábados e domingos, compõem a Comuna Urbana Dom Helder Câmara (MST). É um trabalho em que as possibilidades do arquiteto como educador são nítidas (apesar da neblina das montanhas da região). O texto de Dom Helder também tem muitíssimo a ver com o potencial humano encontrado na obra que leva seu nome.

27.10.08

princípios gerais para o fazer científico

A Política (que independe de convicções partidárias) e a Espiritualidade (que independe das religiões; e em ambos os casos o lembrete poderia ser desnecessário) estão por toda parte, de tal modo que, ignorar ou suprimir tanto um quanto outro "lado" (porque às vezes parece ainda se trata de uma oposição) é igualmente impossível e reacionário.

Só podemos avançar, nós, a humanidade, à medida em que Política e Espiritualidade caminhem juntas, de maneira consciente e em franco equilíbrio. Enquanto a Política não for concebida e praticada como a expressão do convívio de seres espirituais na Terra e a Espiritualidade continuar sendo algo predominantemente restrito ao âmbito do progresso individual e extra-terreno, creio que nem mesmo os estudos -tanto políticos como espirituais- têm perspectiva de se renovar.

A estagnação está para ser superada alguma hora; diante da inteligência humana e da generosidade do Cosmo, esse movimento é inevitável. Mas, por que tanta relutância ao engajamento já, agora, coletiva e conscientemente, neste processo de espiritualização da Política (e do conhecimento acadêmico atual) e de uma politização da Espiritualidade (para além de uma ação "social" e filantrópica?)

Sobre a necessidade de uma consciência da Política e da Espiritualidade na pesquisa e na produção do conhecimento - do caderninho, 25/10/2008.


23.9.08

entrevista

Hoje aconteceu um fato interessante. Participei como entrevistada do programa "Terapia e Música", produzido pelo canal tvcinec e transmitido ao vivo pela internet. O tema o programa foi a relação de arquitetura e música. Foi um bom treino para tornar o conteúdo apresentável em uma situação "de improviso" (ou, pelo menos, sem tempo para maiores planejamentos).

O principal cuidado foi o de deixar claro que relacionar duas disciplinas ou artes, como no caso de arquitetura e música, não se trata de estabelecer traduções literais, e sim analogias muitas vezes um tanto sutis.


6.6.08

um epílogo para a graduação

O que é arquitetura?

A FAU nos ensina que é impossível o conteúdo caber todo em uma única definição.

Arquitetura são muitas coisas, ou, como gostamos de dizer, “tudo é arquitetura”; tudo o que podemos pensar, elaborar criticamente.

Como arquitetos, temos alguns jeitos (ferramentas, instrumentos, linguagem) muito próprios de trabalhar esse tudo. Usamos o desenho, nosso instrumento _e aí estão a habilidade manual, a lapiseira, os sentimentos e os sentidos_ para compreender o espaço, nosso objeto final, com tudo o que ele contém e pode conter. No espaço, estão a matéria construída e o vazio, estão as pessoas e suas relações com as coisas e pessoas. É isso que nos encanta. Isso é o que podemos (ou até que devemos) fazer na FAU. Foi isso o que nós tentamos fazer e fizemos aqui, nos últimos cinco, seis, sete, oito anos.

Durante esse tempo, a FAU foi, para nós, casa e mãe. Aqui adotamos os irmão que nos faltavam, fomos acolhidos e orientados. E foi uma acolhida com qualidades talvez únicas. Se de um lado a grade curricular e a carga horária, entre outros sintomas de uma estrutura acadêmica mais engastada do que precisaria, muitas vezes atrapalharam nossos projetos pessoais, nunca tivemos tanta liberdade quanto aqui dentro. A liberdade de olhar para as coisas todas como arquiteturas, para muito além do senso comum. Essa liberdade de pensar, dizer, criar, que faz tantos adiarem a partida.

Agora estamos indo e não nos quer parecer ser tão impossível ser livre. Queremos lutar. Queremos continuar nossos projetos, levar adiante as dúvidas que nos instigaram aqui dentro; partir daqui para algum lugar, sim; mas a partir daqui, sem abandonar o que já fizemos, vivemos, pensamos, as amizades que construímos.

Queremos liberdade para fazer arquitetura de tudo que valha a pena; sobreviver para viver; para, quem sabe, criar um lugar em que a vida seja inteira vida, como foi quase sempre aqui na FAU.

E que esse lugar possa ser a cidade.


(discurso proferido em 07 de abril de 2005, durante cerimônia de colação de grau no auditório da fauusp)

29.4.08

faculdade de criação e construção, 2002

(trechos do projeto-texto original)
...
o projeto começa com a fau no pari. da proposta de projetar uma faculdade de arquitetura, surge a idéia da faculdade de criação e construção, um lugar onde se projeta e se constrói. (não se trata de reunir os cursos de engenharia e artes sob o mesmo teto, a serviço da arquitetura). daí surgiu a idéia dos módulos, pelos quais estariam distribuidos os elementos de criação e construção, cada um com uma ênfase. o estudante na faculdade é livre para trabalhar com o que tem mais afinidade, mas nunca perde a relação de sua coisa, seu objeto de estudo, com o todo, porque ele faz parte do todo e também contém o todo.
princípios: ingresso livre (o vestibular é algo muito vinculado ao prestígio do nome da instituição, portanto, não é o melhor instrumento de seleção: exclui uma massa disposta a trabalhar, construir, enquanto beneficia uma grande parte de inexpressivos entre os atuais ingressantes, que só têm como fim um diploma). a inexistência do vestibular liberta o ensino fundamental-médio de suas limitações de agora, já que sua função acaba sendo de transmitir um amontoado de informações para exames.
estudantes como agentes do espaço: propiciar um envolvimento real dos estudantes com o espaço. podem optar por dormir nele, se quiserem. é o momento de se envolver com aquilo. disciplinas realmente livres, salas de aula são salas de reunião coordenadas por um professor consciente de seu papel ali.
no desenho, o módulo desaparece. surgem questões: de onde vêm os materiais? quem constrói? _o desenho como dominação. mas, neste momento de projeto, principalmente como alienação do desenhista...
...
diante deste primeiro impasse, pensa-se um instante na obra. o terreno do pari é um grande canteiro. quem quer construir uma faculdade de criação e construção? é feito o convite à cidade. as construções existentes viram alojamento. no acampamento, as equipes se organizam por afinidade em torno do projeto-construção do edifício e das atividades de manutenção_ limpeza, refeições... cada qual com seu conhecimento trazido da sociedade fragmentada aprendendo a juntar tudo numa construção de um novo pensamento, de um novo trabalho, que beneficie a humanidade em seu conjunto; um trabalho social verdadeiro_ aí sim, dentro da perspectiva de uma nova sociedade, na qual o saber é um saber social, não uma posse como é hoje. o conhecimento hoje converte-se em mercadorias enquanto os trabalhos ditos sociais, ao proporem a “inserção social”, estão, na realidade, produzindo consumidores. o trabalho na obra é para anos, talvez décadas e, pelo caráter que assume, aponta para que, quando a faculdade ficar pronta, ela não precise mais existir, pois teria sido a própria obra (e neste momento o projeto reencontra o texto "trans-escola", surgido no meio do processo de elaboração dessas idéias)
(...)
etapa de aglutinação
o arquiteto-estudante, em vez de lançar-se já à construção da escola no pari, precisa voltar-se para o que mais de imediato pode receber sua intervenção: sua própria faculdade. observando o edifício da fau, é possível perceber que o prédio foi pensado por artigas como um lugar para a aglutinação, ficando faltando apenas a apropriação deste espaço...; o projeto de aglutinação deve reunir uma série de trabalhos, que possibilitem criar uma atmosfera de questionamentos com o objetivo de se entender como as coisas são hoje e por quê. só assim se chega em como elas podem ser (ideal) e, finalmente, em como fazer para que as coisas se transformem. este caminho é extremamente necessário, do contrário, toda nossa produção, como estudantes ou como profissionais, estará sempre contida em uma postura de constante adaptação à realidade, propondo no máximo melhorias e nunca transformações de fato_ a começar pela transformação da apropriação do nosso próprio desenho. sem dúvida estas questões servirão de base para futuros exercícios de projeto. o fato do desenho não ter aparecido neste exercício da maneira convencional não significa que a importância dele tenha sido descartada. pelo contrário. a partir daqui, abre-se uma perspectiva nova para o desenho, que irá buscar uma relação com o fazer e com os materiais e, aprofundando o raciocínio desenvolvido até aqui, voltar-se para um objetivo imediato cada vez mais claro, de aglutinar os potenciais criadores e transformadores.
AUP-152
faculdade de criação e construção
2002

23.4.08

ÓperAção Urbana - parte III, 2003

Na ocasião da disciplina de 2003, o projeto acabou implantado em terreno na Marginal Pinheiros, entre uma estação de trem e o Parque Villa Lobos. O desenho final trazia uma concha acústica em forma de parabolóide que amplificaria e projetaria o som produzido ali para a cidade.
Os maiores ganhos desse processo foram a reflexão do espaço público e do fazer artístico ativo também por parte do público e o contato que realizamos com diversos profissionais, entre arquitetos, músicos: regentes, cantores, instrumentistas..., arquitetos-músicos e músicos-arquitetos, técnicos em acústica, construtores de instrumentos musicais, educadores...
Ensaiamos uma continuidade direta do projeto em 2007, daqui a pouco abro um capítulo para ela.
Individualmente, isso sem dúvidas possibilitou um avanço da reflexão tímida que tinha colocado no papel pela primeira vez no final de 2002, além de desdobramentos sobre a questão do ensino de "criação e construção", que vou expor também aqui no blog.

21.4.08

ÓperAção Urbana - parte II, 2003




esboço da ópera, ainda sem implantação definida


Uma das maiores dificuldades foi a implantação do percurso da ópera em São Paulo. O texto a seguir foi escrito naquele momento.


implantando 1jun3

Dina, está difícil definirmos as coisas. O que acontece? Precisamos de materialidade! Nossa idéia viajante está muito boa, mas não vamos conseguir avançar e defende-la se não chegarmos à sua materialização.
E isso, no momento, quer dizer que ela precisa ser implantada em algum lugar.
Queremos que a estrutura soe para a cidade.
Queremos que as pessoas criem coletivamente, que se inicie pela arte, dada nossa sociedade agora como está, uma nova organização do trabalho.
Nosso projeto precisa tornar viva essa organização. Coisas vão acontecer lá dentro e só “servirão” se não forem o caos. A música pede harmonia. De cara, somos “contra o caos”. Bom.
O que vai acontecer lá dentro depende muito da nossa intenção, dos princípios da nossa proposta, coisa que já fizemos. Na verdade, superamos um ponto que é o do que queremos que aconteça lá dentro.
Estamos bem aí: como isso vai acontecer? E agora sim, dependemos da forma e da implantação.
Não nos cabe tanto pensar em formas acabadas para os produtos que vão sair, tentar criar paralelos com orquestras e corais, dispondo mecanismos que correspondam a isto ou aquilo da realidade. Precisamos pensar diretamente na produção da arte, na produção como arte, na organização do trabalho. Mesmo porquê, olha só! O que é arte, afinal? Não seria tudo o que fazemos com alguma consciência de que estamos fazendo, ou seja, com intenção? Estava pensando nisso: a gente escreve um texto, ou mesmo falando, sem fazer necessariamente poesia. Ao falar, a nossa voz é um som, mas não é ainda música. Andamos pra lá e pra cá, nos movimentamos o tempo todo e nem por isso estamos dançando... isso para dizer que a arte poderia estar em tudo, forçando a barra, se houvesse um pouco mais de atenção quando a gente faz o que faz sempre. Olhando pra essa afirmação, só, podemos tirar que existe uma separação muito forte, as coisas são vistas bem unilateralmente, ao ponto de uma, o objeto da sua ação, se sobrepor a outra, que é o como você faz o objeto, sendo que essas duas coisas são parte de um mesmo processo. Isso não é nada sobrenatural, só estou constatando; daí podemos relacionar essa incapacidade de atenção mais ampla como resultado de um monte de “coisas”; por exemplo, a mecanização. Pra não fugir do assunto: é um desafio enorme criar um edifício “conscientizador”.
Mas pensando assim, no edifício-despertador, que vai te acordar quando você é o ouvido na entrada, o prédio tem que estar totalmente relacionado com a cidade, que onde acontecem os processos, para o qual queremos despertar os sentidos, a consciência e então gerar um novo processo de “devolução” à cidade. Essa arte que sai do nosso edifício é uma arte que educa para a produção...
Caramba! Está difícil implantar! Fico pensando no que a gente tem disponível de lugar... Vou tentar outro caminho.
É fundamental que as pessoas entrem nesse edifício com uma “naturalidade”. Não faz sentido as pessoas irem até lá, conscientemente. Vai começar com todo mundo chegando ali a pé, tem que ser. Vai chegar todo o mundo lá do mesmo jeito que está sempre, sem prestar aquela atenção total... Se não, ninguém vai chegar, porque não existe a intenção! A função do nosso edifício não é a de despertar para a intenção? Através do processo que vai se criar lá dentro... Então não podemos contar com ela a priori.
Voltando, as pessoas chegam lá andando. Talvez elas nem percebam que entraram, de cara. Vão percebendo aos poucos, quando viram ouvidos ao passar pela orelha. Daí vão produzir algum som ao passar por alguma superfície... Nada de intenção ainda, a intenção vai se construindo... A superfície tambor em seqüência à orelha é fundamental por isso! Não podemos contar ainda com a intenção! É isso! Depois desse percurso inicial, de leve, vão entrando os outros mecanismos, que devemos eleger dos “menos” aos “mais intencionais”. O complexo está criado. Pode ser um lugar de passagem, de forma que você saia por outro acesso que não aquele da entrada. A seqüência pode ser simétrica na ida e na volta, para captar e aos poucos “devolver” os passante à cidade. No meio, estaria o auge da intencionalidade, do gesto e tudo o mais, aquela conjunção perfeita do som, movimento, das intenções funcionando, com a eficiência de uma máquina, mas sem ser máquina, porque a máquina é programada, não decide o que faz.
Desse miolo emanaria o som, talvez as imagens dos movimentos das pessoas, por algumas aberturas ou pelo movimento das estruturas mesmo, acionadas pelas pessoas, já pensou? E aí haveria algo de instigante. É que nem o nosso projeto, difícil começar; mas um vez começado, uma vez tendo sido produzido som e movimento ali, já não se está mais no zero e começa a ser construída uma intenção a priori: as pessoas indo até o edifício porque querem, intencionam, entrar nele. As pessoas captam o produto e vão para o processo. Faz sentido, num mundo em que todos são consumidores: existe esse treino para captar os produtos! O processo, a produção, isto é o que não está claro. O produto criado pelo edifício é um chamariz para o processo.
A escala vai depender do lugar que escolhermos. Não vejo problema em ser algo grande. Precisamos até de uma certa monumentalidade, talvez... o importante é que não seja impermeável, que não contenha os sons e imagens em si mesma. Isso deve ser projetado à cidade e o prédio deve estar projetado junto, na mesma medida, nem sendo mais nem menos que os sons, imagens etc. A escala depende dessa combinação também.
É isso, Dina, acho que já temos a implantação. Precisamos consultar nossos mapinhas pra ver onde passa um certo tanto de gente, considerando referenciais visuais com significado para a cidade, que poderiam ser evidenciados pela presença de um novo edifício com as características desse nosso.

ÓperAção Urbana - parte I, 2003

O programa da disciplina de projeto daquele primeiro semestre de 2003 pedia um teatro de ópera em São Paulo. A pertinência da proposta foi, desde o início, amplamente criticada pelos estudantes.
Quando me dei conta, no meio dos debates, tinha formado uma parceria com a colega Dina Roldan, arquiteta e pianista. Queríamos estudar, a partir da ópera, as possibilidades de publicização do fazer artístico.
Assim, tentamos pensar o teatro de ópera como um espaço inserido na cidade em que todos pudessem não apenas assistir à arte, mas, ao mesmo tempo, participar ativamente da produção artística.
Tivemos o trabalho triplicado. Além de reelaborar o programa e fazer o projeto, tínhamos de convencer os professores e mesmo os colegas de que não havíamos nos associado para dividir o trabalho em duas. Para isso, acabamos realizando uma exposição em tempo real de tudo o que produzíamos. O trabalho alcançou a extensão de trinta metros de folhas A4/retrato coladas na empena do corredor das salas de aula da FAU.
Como na época se debatiam as Operações Urbanas em São Paulo, batizamos o projeto de "ÓperAção Urbana". Para mim, foi uma bela oportunidade de levar adiante a investigação de relações entre música e arquitetura, que havia começado a registrar no final de 2002.

arquitetura e música na fau, 2004




Página produzida para o manual dos bixos da FAU em 2004.